História Mortal: Órfã de pai e mãe, Héloïse foi criada por seu tio, o
poderoso alto sacerdote Fulbert . O tio era completamente dedicado á sobrinha, e previa um grande futuro para a garota. Então, contrariando os costumes da época, planejou dar á Héloïse uma educação formal. As sacerdotisas de Hiy lhe parecem a melhor escolha. Héloïse aprenderia á ler,
as escrituras, talvez um pouco de história; cresceria cercada de modelos femininos e estaria protegida no claustro.
A garota se sentia á vontade no claustro, mas não era a mais obediente das pupilas. A disciplina rígida e as regras constritivas lhe chateavam e irritavam. Não entendia o por que deveria seguir tradições sem sentido.Também fazia perguntas demais, perguntas que ficavam sem respostas.
Mas Héloïse era doce, meiga e inteligente – qualidades que lhe ganharam o favoritismo das sacerdotisas.
Quando Héloïse deixou o claustro para ir morar com o seu tio, ela estava contente pelos desafios que a nova vida lhe trariam . O mundo exterior parecia se abrir em possibilidades para a moça: novas pessoas, lugares novos para conhecer e menos regras para seguir. Ela tinha 17 anos.
Fulbert resolveu contratar um professor particular para a sobrinha e viu em Abailard , um sacerdote, o homem ideal para a missão.Abailard , então com 37 anos, era um famoso escolar e teólogo que tinha provocado algumas controvérsias no meio acadêmico. A fama e a honra de Abailard era impecáveis, e ele certamente gostaria de ter a proteção de Fulbert .
É claro que Héloïse e Abailard se apaixonaram, mas não seria justo dizer que ela foi seduzida. Não seria justo dizer que não houve uma grande paixão entre os dois. E paixões em comum também - Héloïse amava a teologia e a filosofia, e achou em Abailard um companheiro á altura de seu intelecto.
Porém, Fulbert descobriu o caso. Bom, ficaria meio difícil ele não ter descoberto depois de Héloïse desaparecer por nove meses inteirinhos. Mas Héloïse não queria saber de casamento , afinal, um casamento acabaria de vez com a carreira de Abailard e a prenderia á mais uma convenção social.
Fulbert , furioso, atacou Abailard , decepando-lhe “a masculinidade”. Depois disso, Héloïse e Abailard se retiraram para claustros diferentes. A correspondência entre eles continuou por muitos anos.
O abraço: Héloïse só sabe que , certa noite, Abailard apareceu no claustro dela. Há anos que os dois não se viam, e até as cartas dele tinham rareado nos últimos meses. Corria um boato que Abailard tinha virado um ermitão solitário que planejava recuperar e reabrir alguns templos esquecidos e abandonados. Também, camponeses começavam a atribuir milagres e graças á Abailard .
As mudanças em Abailard eram visíveis, mas ela mesma, Héloïse , não tinha mais 17 anos. Héloïse estava então com
35 anos, e tinha se tornado a mais alta sacerdotisa daquele claustro. Abailard sumiu na noite sequinte , deixando- a com
a maldição da eternidade.
Héloïse decidiu ficar no claustro por mais um tempo, ali era sua casa, e ali teria controle sobre o que lhe acontecia. Aliás, não seria difícil se esconder nas sombras do claustro, e conseguir sangue das noviças e nos rituais de auto-flagelação que sempre aconteciam. Ela permaneceu naquele ambiente familiar por mais
de um século.
Vida pós- morte: Héloïse teve tempo o suficiente para refletir sobre a sua maldição enquanto estava enclausurada. Ela, como uma alta sacerdotisa, conseguiu acesso á algumas informações
e livros que a Ergásia guardava. Á bem dizer, essas pesquisas todas deram fama de demonóloga
á Héloïse . Pessoas laicas e sacerdotes vinham de longe só para se consultar com ela. Héloïse também teve a oportunidade de influenciar e aconselhar muitas noviças e pupilas, entre elas Irina .
É claro que essa fama toda começou a incomodar á alta hierarquia da Ergásia . Afinal, Héloïse podia ser uma alta sacerdotisa, mas era acima de tudo uma mulher. Héloïse também não gostava da
fama que tinha, fama que lhe punha em risco de ser descoberta como a amaldiçoada que era.
Héloïse aproveitou um terremoto noturno para fugir. O claustro foi completamente destruído, e a alta sacerdotisa Héloïse foi dada por morta. Obra divina, escapada perfeita.
Héloïse partiu para a pequena cidade de Piyr . Ali, naquela cidadezinha tomada pela febre do ouro, ninguém a conhecia
e pouco se importavam com seus hábitos. Brigas e bêbados eram comuns o suficiente para ninguém se importar com mais um morto.
Até que uma noite , Abailard apareceu em Piyr . Não foi fácil ver o homem que virou a sua vida de ponta cabeça mais uma vez. Só então Héloïse percebeu o quanto odiava Abailard . Ela percebeu também que a eternidade não tinha feito bem á ele. Abailard tinha se tornado arrogante, prepotente e esnobe.
Até hoje, quando Héloïse e Abailard se esbaram , é certo de saírem faíscas.
|