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Pois, seu moço, acontecido estranho aquele. Eu mesmo, se não estivesse lá e não tivesse tirado
as fotos depois, eu acreditaria não. E olha, eu já vi muita coisa.
Isso foi antes de abrir o estúdio. O compadre e eu pegávamos as máquinas de retrato, as tralhas todas e saiamos pelo interior. Acho que não teve cidade, povoado ou vila que a gente não visitou. Tudo na base da carroça.
E não foi que um dia o eixo da carroça me quebra? Sim, no meio do nada, entre duas vilazinhas. Deixei o compadre com a carroça, e andei até a vila pra procurar ajuda.
Antes mesmo de passar pelas primeiras casas percebi que algo, não tem outra palavra, estranho estava acontecendo. Era um sábado, e o sol mal tinha se posto. Nenhuma cadeira na calçada, nenhum lampião acesso, sem cheiro de comida, nem vozes nas casas. Ouvi um tiro. Será que um bando de cangaceiros estava atacando o vilarejo? Mas um vilarejo tão pobre, e sobre a proteção
de um coronel poderoso?
Pelo sim e pelo não, o melhor seria dar a volta por fora do vilarejo. O lugar era pequeno, não deveria ter mais do que 200
pessoas; e enquanto eu dava a volta, eu podia ouvir tiros e vozes na praça. A curiosidade tirou o melhor de mim. Entrei no cemitério, que dava de fundos para a caatinga, e subi numa árvore alta. Dali pulei pro telhado da igrejinha, e fui me esconder atrás da cruz de pedra, de onde eu poderia ver a praça toda.
E eu vi a praça lotada. Foi fácil diferenciar os bandidos dos moradores da vila. O moço já deve ter visto uma foto de um cangaceiro, pois não? Pois, eles se vestiam bem daquele jeito. E os bandidos eram todos brancos, chega mais claros que galegos. Eram bem uns 40 cabras. Os bandidos cercavam os moradores, umas 60 pessoas mais ou menos. Onde estaria o resto do povo da vila?
Olhei para baixo, e logo abaixo de onde eu estava, em frente á porta da igreja, eu vi uma grande pilha de corpos. E pelo cheiro, os corpos já estavam ali á uns dias.
Os bandidos encurralavam cada vez mais os moradores. Ninguém gritava, nem resistia, ou lutava. Pareciam embruxados, fracos demais pra reagir; assim, como se soubessem que não adiantava tentar fugir, como bois encurralados esperando pelo abate.
Então, um dos cangaceiros, parecia ser o chefe do bando, escolheu uma mocinha. Fincou as unhas nos pulsos finos e morenos dela, imobilizando-a. A menina murmurava alguma coisa. Ele afastou as tranças dela e, para a minha surpresa, a mordeu no pescoço. Após alguns minutos, ele a largou.
Ela caiu no chão, morta; um pouco de sangue ainda escorria do pescoço dela. Ele, a boca suja do sangue, fez um sinal com a mão.
O resto dos bandidos, após o sinal do capitão, avançou sobre os moradores. Dominavam a vitima, mordiam-lhe o pescoço, sugavam o sangue, largavam o corpo no chão e pegavam outra vitima.
A gente da vila dava uns passos trôpegos, pareciam bêbados, umas corridinhas - alguns até uns gritinhos- mas era tudo inútil. O chão da praça se enchia de cadáveres, que derramavam as últimas gotas de sangue no chão de terra batida.
As pernas me faltavam, o estômago chegava na garganta: que quadro horrível, minha nossa senhora! Desviei o olhar, e do meu posto de riba da igreja, vi que um grupo se aproximava da vila. Seriam os macacos?O moço sabe, as volantes, os soldados que viviam atrás dos bandidos. Mas, olhando melhor, aquilo mais parecia uma procissão.
Logo, o grupo chegou na praça. Eram uns 15 homens, todos montados. Traziam um grande cruz e um ostensório, incensários e asperges. Mas vinham armados também: pistolas, espingardas, lanças e facões. E já entraram na cidade cantando alguma coisa em latim. Seriam beatos?
Os bandidos não fugiram quando os beatos chegaram, mas largaram as vitimas e se agarraram com as armas que tinham. O primeiro tiro veio do capitão dos cangaceiros, e o tiroteio começou. Eu não entendia o que tinha acontecido ou o que estava acontecendo, eu
só sei que os tiros não atingiam nem os cangaceiros nem os beatos. Foi quando um beato,
do alto do cavalo, passou um cabra na lança. O bandido caiu por terra. Os outros bandidos , vendo o companheiro caído, tentaram fugir.
A maioria escapuliu, mas uns 10 foram cercados pelos beatos. Esses foram lanceados pelos beatos.
Silêncio.
Do teto da igrejinha, eu via os corpos espalhados pela praça. Sete moradores, os sobreviventes, olhavam os beatos com gratidão e receio. Os beatos, no outro extremo da praça, apearam dos cavalos. E sem uma palavra para os moradores, arranjaram os corpos dos cangaceiros lado-a-lado. Cortaram as cabeças dos 12 bandidos, guardaram as cabeças nos embornais e depois, usando querosene, queimaram os corpos dos cangaceiros. Os corpos dos cangaceiros queimaram rápido demais. E, pouco depois, os beatos partiam- passando a tropel por cima das cinzas dos bandidos.
Pouco depois da retirada dos beatos, o meu compadre entrou na praça conduzindo a carroça. Só daí que eu fui me lembrar de descer da igreja. O céu estava começando a clarear, e o sol
já se levantava.
Os moradores da vila não sabiam o que fazer. Afinal, o que se pode fazer depois de uma vila inteira ser assassinada?
Eu e o compadre batemos umas chapas: dos mortos espalhados na praça, dos empilhados na porta da igreja, e uma dos sobreviventes. O melhor a fazer era imitar os beatos e atear fogo nos corpos, pois abrir cova prum povoado todo seria loucura.
Saímos do povoado com a fogueira ainda ardendo; os sobreviventes, compadre e eu.
O cheiro de carne humana queimada grudado nas roupas, no cabelo e no nariz.
Então , um dos homens me contou o que havia se passado. O bando de cangaceiro havia tomado
a vila há uma semana. Toda noite reuniam o povo na praça, como eu já disse. Desapareciam durante o dia, mas ninguém da vila tinha conseguido fugir: todos estavam muito fracos para isso, todos tinham alguém para enterrar, algum morto pra chorar. E os bandidos sempre voltavam, por sete noites voltaram, e faziam como eu vi, como eu já expliquei pro moço.
Os beatos? Os moradores conheciam eles também não. Meu compadre disse que eles tinham passado por ele, consertaram a carroça; mas não o deixaram entrar na vila- disseram que era perigoso demais. O compadre só entrou na vila quando os beatos passaram por ele na volta.
Sabe, aquela vila hoje está abandonada. E ninguém gosta de passar por lá de noite, dizem que
dá pra escutar gente chorando e gritando, e há quem tenha sentido o cheiro de queimado.
Mas, como eu já disse, eu mesmo se não tivesse visto tudo e batido as chapas;
moço, eu acreditava nessa história não! |
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