Eu sentia o meu sangue escorrendo pelo meu braço. Liquido quente e espesso, o vermelho vibrante....eu não podia desviar o meu olhar.O corte latejava e ardia: um grande sorriso de sangue.
Pingos de sangue na minha coxa, correndo pela minha perna. A dor apagava tudo, e só meu corpo existia num infinito escuro, fértil, pulsante e morno. Gotas caiam ritmicamente dentro de mim me dando prazer e conforto. Eu como meio e fim de mim mesma.

Então, alguém me tocou no ombro, pelas costas. A porta do cubículo do banheiro publico fora aberta e eu nem percebera. E,agora, a mão cravava unhas no meu ombro- logo acima do corte, em cicatrizes velhas.
Uma boca fria começou a lamber minha ferida. Língua ágil que estacava a hemoragia habilmente.Saliva salgada. O movimentos da língua na ferida mandavam arrepios e calafrios pelo meu corpo, percebi que o sangue se juntava a suor, molhando minha roupa. Então abri os olhos.
As luzes fluorescentes machucavam minha vista. As manchas dos azulejos se mexiam diante dos meus olhos, se fundiam e se separavam deixando rastros de movimento. Senti a corrente de ar que pregava a camiseta molhada no meu tórax. O cheiro do banheiro me enjoava, me repelia e me fascinava- que combinação de cheiros era essa que eu nunca tinha percebido antes? E que fazia eu nesse lugar estranho, e que boca era essa que tirava a vida de mim? Mas a minha cabeça estava pesada demais, os zunidos no meus ouvidos me deixavam tonta, o ar me faltava, mãos geladas e molhadas, não sentia mais as pernas.
O coração quase parando me impulsionou para um nada acolhedor; o vácuo das minhas veias me lançava numa liberdade negra e incerta. A sobra de mim num banheiro sujo, sujo com o meu sangue.Morte.Eu como fim de mim. |